quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Em companhia de sacos


          
Estão a carregar sacos, feito papais Noel.

         Um é gordinho, negro, usa óculos e diz que adoçante líquido mata enquanto aqueles que estão no saquinho de papel, ah, esses fazem bem. E fica repetindo enquanto aponta o dedo: "Esse mata, esse faz bem" E repete, repete, repete... A outra é pequenina, magra, quase anã. Tem longos cabelos emaranhados castanho-avermelhados que contornam um semblante sério. No topo da cabeça ostenta uma horrível toca de lã pontuda que a protege do frio ou do sol à pino ou da chuva. Parece um duende. Minha memória até insiste em vesti-la de verde.

         O sem nome entra na padaria sorridente, se faz notar sem palavras, nem precisa! Ele – ENORME - e seus sacos – ENORMES - ocupam espaço, um espaço de tons escuros  como sua pele, suas roupas, seus óculos, seus sacos. A sem nome vagueia pelas ruas com passo decidido, parece ter pressa, talvez pressa em levar seus sacos pra sabe-se lá onde. Ela não para, sempre que a vejo está em movimento, só não parece voar porque ao invés de asas carrega nas costas sacos de lixo pesados, uma fada da sarjeta.

         Os dois são sujos e fedem e se afastam de todos e afastam todos de si. 

Só tem a companhia dos sacos. 


*Gravura: "Os mendigos", de Bruegel (1508)


sábado, 1 de setembro de 2012

Proatividade e reatividade



            O pró-ativo antecipa e se responsabiliza pelas próprias escolhas e ações frente às situações impostas pelo meio, enquanto o reativo espera as coisas acontecerem e... reage. Todo mundo tem essas duas partes e suas diversas nuances à disposição, mas também existem pessoas que carregam em suas personalidades a predominância de um desses polos.

            A tendência do pró-ativo é enxergar os problemas antes de acontecerem, e num mundo onde impera a reatividade ele se torna um ser isolado, como no mito de Cassandra, condenada por Apolo a prever os fatos e ninguém acreditar nela.

            Aquele que traz em si um grande percentual de proatividade não é um ser superior, muito menos dotado de capacidades paranormais, apenas enxerga o todo com maior facilidade, com certa distância de sua própria personalidade, consegue – ou é condenado a conseguir – colher informações e emoções que passam desapercebidas em geral.  Talvez seja mais atento e menos centrado em seu próprio ego, vai saber.

            Aquele que traz em si maior percentual de reatividade simplesmente não compreende o pró-ativo: lógico, é provável que as coisas de fato ainda não tenham acontecido, ou o reativo ainda não conseguiu ver as coisas como são, porque estão escondidas com densos véus.

            Enganos nos dois polos existem: às vezes o pró-ativo exacerbou uma semente, real, mas que ainda não germinou nem cresceu e pode muito bem ser extirpada, e o reativo nem sabe como reagir e perde as estribeiras; mas às vezes o pró-ativo acerta no alvo e o reativo “se defende” como pode.  

            São muitas as diferenças de ação, pensamento e sentimentos que distanciam seres pró-ativos e reativos. Enquanto o reativo se defende, pois traz o mundo pra si, considera o externo como um perigo a ser enfrentado e que esse externo o ataca em maneira pessoal, o pró-ativo propõe novas possibilidades, soluções, não consegue levar as coisas pro pessoal porque lhe grita forte uma consciência interna que cada um está trilhando seu próprio caminho; ao mesmo tempo em que separa sua personalidade dos fatos, seu interno e o externo, sabe que o TODO está em tudo, e que interno e externo são uma coisa só, separáveis apenas neste plano da dualidade. Parece contradição, mas acredito que as pessoas que exercem a proatividade entendam o que estou falando. Ou não? 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A última vez que te vi



Lembro a última vez que te vi, sentado ao piano, 
corpo moreno em vestes creme compondo 
elegante degrade com as teclas. 

Contrastes suaves, contrastes fortes... 

Contidas pelas persianas doces espadas de luz iluminavam 
a cena, iluminavam sons profundos, 
iluminavam os prateados, 
realçavam suas luzes. 

Aproximei-me devagar para sorver até a última gota daquele instante. Sei que os instantes são únicos, 
tendencialmente vivo o belo com intensidade... 

Aquele momento foi único;  
é único na medida em que recupero, agora,  impressões vívidas guardadas nas memórias, trazidas à tona, reformuladas, redimensionadas, com novas roupas, mas que conservam a inteireza suspensa dos eventos mágicos, do encanto.  

Sem perder o foco caminhei lentamente ao seu encontro 
feito zoom, fruindo o leque de sensações que 
o quadro em movimento  despertava.  

Meu silêncio de gato não funciona com quem tem percepções despertas, então você se levantou pra me receber. 
Nada se quebrou, mas seu olhar trouxe suas palavras 
antes de serem expressas. 

Almas se falam. 

Almas sintonizadas.


             Ainda não compreendi com os parcos meios terrenos, não me importo com isso. Às vezes é assim, milenares amigos que se encontram, se reconhecem, que se sabem apesar de vidas, das atuais vidas, tão diferentes. É um saber de verdade, da natureza profunda, muito além dos caminhos traçados nesta fase, além das escolhas feitas nesta etapa. Encontros de amor incondicional. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Quando o emaranhado de fios de lã cinza prendem as pernas


        Parecia tudo bem, colorido, quando o emaranhado de fios de lã cinza prendaram minhas pernas outra vez. Identifiquei o gatilho, mas já era tarde demais. Uma vez desencadeado o processo é difícil, quase impossível transformá-lo. Tentei enfrentar o medo, coloquei-me em movimento, usei inúmeros argumentos racionais, éticos, mas o corpo se mostrou autônomo em sua debilidade. Fui invadida por ânsias, dores de cabeça, a visão começou a turvar. Dei meia volta, fui até onde era possível. Parei. Quando parei, chorei. Chorei muito. Sentia-me cansada, exausta, triste por deixá-los vencer;  inconformada por lhes presentear um dia, um meio dia que seja, do valioso tempo da vida; sentia-me culpada por deixá-los impedir encontros e compromissos;  sentia raiva em deixar vitoriosos os sabotadores de felicidade.  Por fim, simplesmente aceitei. 
        Conversando com minha irmã – finalmente aprendi a receber ajuda! – entendi melhor o que estava acontecendo. Desculpei-me, comigo e com os outros, relaxei. Consegui me perdoar. Da próxima vez que avistar os novelos cinza desenrolando seus fios pra me segurar, espero ser outra, mais hábil, mais forte, melhor instrumentalizada. Tomara que consiga ter em mãos uma paleta rica em nuances para transformá-los em arco-íris com amorosas pinceladas. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sabiá-laranjeira


    
    
    No meio do barulho dos carros, motos, dos gritinhos infantis brincando na escola, do zun-zun-zun das pessoas conversando no celular e da furadeira esburacando o prédio, um sabiá-laranjeira esbanjava suas melodias. 

   Parei. Procurei o bichinho. Fiquei lá, encantada, olhando pra cima, entre a padaria e minha casa. O mocinho estava no meio de galhos secos, estufando o peito alaranjando e soltando o verso. Momento de suspensão, um milagre. Não pensei nada disso que estou falando agora, só olhei e ouvi. Inteira. Una. Identificada. Me senti sabiá-laranjeira... Fiquei com vontade de assobiar, cantar, de harmonizar sons e criar uma sinfonia pássaro-humana... Só que, estranhamente, senti vergonha! E quando olhei pro lado tinha uma figura olhando estranho praquela que tira fotografias do céu, que fica rindo pras flores, que brinca com o cachorro preso na casa de ninguém, que sorri pra quem não conhece, que brinca com as crianças, que faz yoga no parquinho, que medita na piscina, que agradece todos os dias à vida, ao Sol, ao TODO, que sai por aí assobiando, que fala bom dia, boa tarde, obrigada, assim, só porque dá vontade.

     Talvez tenha ficado com vergonha de me sentir tão bem, e de saber que aquela figura se manteve distante, com seu olhar reprovador, mas não chegou perto por falta de sintonia. Talvez tenha ficado com vergonha por ter essa predisposição a colher belezas, e por saber que aquela pessoa vive sempre a se lamentar, e que, apesar de estarmos no mesmo lugar, ela sequer ouviu o sabiá-laranjeira. Ou talvez tenha ficado com vergonha por saber que insensíveis só estariam vendo mesmo uma louca olhando pra cima, parada no meio da calçada e rindo.

    Ao sentir vergonha me desconectei do passarinho. Ele também parou de cantar. Saí do estado de plenitude só porque alguém vive em maneira diferente. Que besteira me importar com o que podem pensar – e falar - de mim...  
     
    Em alguns minutos colhi preciosas informações da vida. Obrigada sabiá, contigo aprendi que posso espalhar meus cantos, expressar minha alma, simplesmente ser, independente dos rumores externos; obrigada figurinha, com você entendi que só depende de mim preservar momentos de encanto.  

domingo, 22 de julho de 2012

Kamenskoye ou Dniprodzerzhynsk


        Papai, ucraniano de Kamenskoye, renomeada Dniprodzerzhynsk em 1936, conterrâneo de Brejnev, adorava a chamada “música clássica”... Ele nasceu em 28, filho de aristocratas que permaneceram na terra natal e sobreviveram à matança dos anos que seguiram a revolução de 17. Brejnev, ainda jovem mas já com cargo importante, resolveu criar uma universidade em sua cidade e meu avó saiu da prisão pra dar aulas de literatura e línguas estrangeiras. Reza a lenda que ele falava e escrevia com fluência 7 línguas, pois era o representante internacional das vendas de ouro das minas da família, que foi assassinada na revolução enquanto ele fazia negócios em Paris. Papai dizia que meu avó só tinha sido chamado pra ser professor na faculdade porque os “comunistas” não tinham outra opção depois de terem acabado com a elite cultural do país... Pontos de vista...Mas lá pro finalzinho da sua vida, finalmente ouvi algo de positivo saído de sua boca sobre aquele sistema, aquela ideologia, aquele “ismo”, que tanto nos distanciou.
         
         Ouvindo juntos a nona sinfonia de Beethoven, regida por Karajan, pela milionésima vez, papai abaixou o som, pediu lápis e papel e, com as mãos trêmulas, fez o desenho acima. Finalizado o desenho (sim, ele fazia uma coisa de cada vez, de um jeito bem europeu.  Como queria ter aprendido isso...) me explicava, com aquele sotaque teuto-ucraniano que nem os cinquenta anos como brasileiro conseguiram apagar: “Bête, antes da revolução, o povo de Kamenskoye vivia debaixo da terra. Escavavam um buraco e colocavam esterco pra segurar as paredes; construíam uma lareira que também servia como saída de ar, e conseguiam assim afastar o frio. Os comunistas destruíram essas favelas subterrâneas e construíram moradias simples, mas melhor equipadas, pequenos prédios de três andares que abrigaram essas pessoas. Primeiro construíram as novas casas, mudaram o povo pra lá, e depois destruíram as favelas. Em cima delas, das antigas moradias, construíram parques pro povo passear, e nesses parques tinham coretos onde todos os domingos se apresentavam orquestras que tocavam Rachmaninoff, Tchaikovsky, Prokofiev.Era a nossa única diversão.”

         Em 1936 os policiais invadiram de madrugada a casa dos meus avós e levaram, na porrada, meu avô pra Sibéria, debaixo dos olhares e súplicas da vovó e das crianças. Essa ação fazia parte da “limpeza” instaurada por Stalin. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As portas se abriram: entrei no domínio do AMOR



                   Entre amigos, apareceu a conversa sobre mediunidade, e enquanto as pessoas relatavam as percepções que os cinco sentidos não dão conta, bebiam uísque e cerveja. Pensei com meus botões: “será que elas não sacam que assim atraem uns serzinhos de baixa vibração?” Na mesma hora bateu aquela vontade de fumar um marlboro light... Ri sozinha. É assim, cada um com sua LUZ, cada um com sua sombra; nenhum anjo, nenhum demônio. Humanos, simples humanos. Trabalhadores da LUZ? Sim, tantos se esforçam nesse sentido, mas será que sabem realmente o que estão fazendo e pra quem estão fazendo?  Inspirações, insights, intuições, premonições, projeções da consciência...  quem as interpreta? Você, eu; seres humanos.  Interpretamos de acordo com aquilo que somos, com nossa consciência. Uma linda frase do prof. Koellreutter: “O homem é condenado a viver de acordo com sua própria consciência.” Simples assim...

                Minha paciência com algumas coisas acabou.  Não aguento mais “ismos”, nem “istas”, nem aqueles que se autodenominam profetas, mestres, missionários, etc, etc, etc. Só quero saber de gente que sabe que é gente, que vive aqui, agora, no seu tempo; que saiba que sua verdade é uma pequeníssimíssimíssima parte de um TODO incompreensível, dada sua – atual??? - condição humana.  Quero companheiros que saquem seus erros e acertos (e as infinitas nuances entre os dois pólos), abertos à troca, receptivos, inteligentes, que defendam suas ideias respeitando as dos outros, as minhas inclusive, desde que seja possível. Se não for possível existir esse respeito – que é construído ENTRE as pessoas envolvidas, e de comum acordo, que isso fique bem claro! -  aceite a distância.

                Estou chegando na reta final do percurso dessa vida, não tenho mais saco pra aguentar atritos que não sirvam pra deixar minha vida melhor, que me façam crescer. Egoisticamente assim. Existem 7 bilhões de encarnados e, dizem, três vezes esse número rondando por aí; oras, não tenho tempo, numa vidinha como essa minha, pra dar atenção a todo mundo, então... posso escolher. E a escolha se dá através de uma palavrinha mágica, cujo significado – obviamente pessoal - é dado por minha consciência atual. Mutável, mutável...

                As portas se abriram: entrei no domínio do AMOR.