quarta-feira, 16 de maio de 2012
E se viver for espalhar canções?
E se viver for espalhar canções, oferecer bocadinhos de som salpicados de carinho?
E se, nesse vendaval auditivo, um sorriso menino brilhar a cada entrega?
E se o brilho desse sorriso iluminar os espaços sombrios do coração?
E se a troca de luz e som se transformar em espirais coloridas que giram na tela rumo ao infinito?
E se viver bem for apenas voar com leveza no fluído natural das expressões da alma?
domingo, 13 de maio de 2012
Ser Multicultural
Outro dia, numa disciplina do
mestrado, um amigo falou que todo brasileiro precisa conhecer a riqueza de sua
cultura e expressá-la. Concordo, mas... legal mesmo é cada um ser verdadeiro, expressar sua arte
de acordo com sua história de vida, com suas “verdades” e a minha é
multicultural.
Nasci
no Brasil, filha de ucraniano de origem alemã e neta de romenos, também de
origem alemã, todos luteranos apesar de não praticantes, com uma tia-bisavó
judia. Passei minha infância num bairro onde a maior parte das crianças eram
filhos ou netos de imigrantes: japoneses, italianos, sírio-libaneses,
espanhóis, portugueses, russos... Meu tio era filho de índia com espanhol,
minha madrinha nasceu em Istambul, nas festas do meu primo “brasileiro” minha
mãe fazia a voz grave nas músicas caipiras com a tia que tocava violão, e
depois eu sambava feliz, sem me importar com os passos germânicos – que talvez
nem fossem tão teutônicos assim - enquanto rolava solto as vozes daquela família mistureba, acompanhadas por violão e pandeiro. Tinham festas que um tio dançava
Kalinka até cair – literalmente! -depois de beber vários copos de vodka gelada,
outras que me admirava com os passos sensuais dos tios tangueiros.
De
tanto frequentar a casa da minha amiga Claudia Naomi Tarumoto, aprendi a comer
arroz na cumbuca usando hashi; aprendi a
conhecer um pouco do universo cultural japonês através do comportamento da sua
família, dos sons que ouvia, da tradução dos mesmos em complicada grafia. Da minha
amiga sírio brasileira, Solange Sá, absorvi as maneiras doces e amorosas de sua
família. Na escola tinha o espanholzinho que falava com sotaque do ouro que
tinha nas igrejas europeias, e a professora dizia que o ouro tinha sido roubado
da América Latina; acho que foi aí que comecei a me interessar por história. Ganhei dois livros de
aventuras, as viagens de uma menininha e seus animais exóticos de estimação; o
primeiro pelas Américas e o segundo pela África. Me apaixonei pela América
Latina, me apaixonei pela África, e fiquei muito tempo perturbada quando soube
que arrancavam as pessoas da sua terra, as afastavam da família e amigos, e as
levavam para trabalhar de graça num lugar distante e com costumes diferentes,
mas só soube mais tarde o que fizeram com as populações indígenas das Américas.
Foi na infância que comecei a pensar nas possibilidades de encontro e
reconhecimento entre culturas, no que hoje chamam de cultura da Paz, não em
maneira consciente, claro, mas com o coração, de tanto que gostava dessa
diversidade.
Vivi na
primeira infância a riqueza da diversidade cultural: as línguas com suas
construções tão particulares, os fonemas, aqueles sons que expressavam a
maneira de ser peculiar a cada povo, as comidas, as danças, os odores, as
expressões físicas, os pensamentos, as éticas, as religiões e filosofias de
vida, os jogos. Mais tarde, a vida continuou a me presentear com situações
multiculturais: a escola francesa, meus amigos judeus, as viagens pelas
Américas, Europa e África, a Associação Cultural Cantosospeso de Milão, com sua
proposta de união entre os povos “de várias cores, vários sons”, para
finalmente retornar ao Brasil, conhecer melhor suas manifestações culturais, e
me embrenhar no estudo e vivência da espiritualidade universalista.
A
riqueza cultural desses “Brasis” é tão gigante quanto seu território, é maravilhosa, com certeza,
mas não é a única que me pertence ou que me desperta a curiosidade. Por honestidade e coerência com a história de
vida dessa encadernação, só posso ser multicultural.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Delicadezas
Se pudesse te curava. Se pudesse, me curava também. Olhar no
fundo do seu olhar e não poder dizer nada porque não há nada que se possa dizer...
Por enquanto é assim. É, é só esperar,
esperar que um dia se curem as feridas ou ao menos parem de sangrar. Sabe-se lá
porque sei das suas, talvez porque bebi de seu copo, talvez seja uma
ressonância simpática, empatia, a essência colhida nos sons. Sim, nos sons,
porque as palavras são imprecisas, incapazes de traduzir a poesia da alma. Mas... a
música... ah, a música entra nos espaços mais recônditos. A música desce aos
infernos, ultrapassa as esferas celestes, voa longe, entra em sintonia e volta
da viagem organizada, como um retrato em movimento, como flashes de luz
apreendidos pela câmera aberta. A música cura. Cura sim, devagar, com carinho,
atenção. A beleza cura. Cura sim, devagar, com carinho, atenção. O Amor cura. Cura
sim, se aproxima devagar, e com carinho,
atenção e paciência cuida silenciosamente dos afetos.
domingo, 6 de maio de 2012
Aprendendo a dizer "não"
A maior
dificuldade pra algumas pessoas é saber o momento de dizer "não". Mas todo mundo
aprende, ah, aprende, porque os professores aparecem numerosos enquanto não
cumprirmos essa tarefa. E de nada serve pensar o quanto são inconvenientes,
porque estão agindo de acordo com o que acreditam, segundo suas próprias
necessidades e anseios, sem pensar em você. Você – eu inclusa! – é que precisa
decidir o que fazer com sua vida, com seu tempo, e saber dizer "não" com tranquilidade, sem culpas, e deixar isso amorosamente muito claro. Ninguém vai pedir pro piloto de
avião ajudar o passageiro que está passando mal porque sabe que perigas todo
mundo terminar mal se ele sair de sua posição. Mas, quem sabe o que você faz na
vida? Quem sabe dos aviões que está dirigindo? Só você, e dizer "não" também é preciso.
O mais
difícil dos nãos a serem ditos são aqueles que negam ajuda. Uma das últimas
tarefas de Psiquê - talvez a última - é justamente resistir aos pedidos de socorro daqueles que
estão se afogando. É uma imagem cruel, para todos, Psiquê e náufragos ....
Aprender a controlar o ímpeto da “generosidade” é difícil, mas necessário, fundamental para
prosseguir a travessia. Vivi, há muitos anos atrás, uma situação horrível, em
que estava me afogando em problemas, e como me debatia terrivelmente, pedi ajuda a uma
grande amiga. Ela me negou, com firmeza e com amor. Sempre a considerei sábia,
generosa – e por isso fui pedir sua ajuda! - e apesar de naquele momento ter é
ficado bem p... da vida com seu “não”, o tempo passou, e só tenho que
agradecê-la! Hoje, pra mim, ela é ainda
mais sábia, e ainda mais amiga. Ela segurou o timão de sua vida sem desviar seu
caminho apesar das minhas súplicas e chantagens emocionais inconscientes; soube
observar com clareza e carinho que só eu, com minhas próprias forças,
discernimento e traçando uma nova rota pra minha vida poderia me salvar. E
assim foi. E sou muito grata pelo respeito que ela teve – e tem – por mim como
ser humano. Ela, minha querida amiga, continua sua maravilhosa travessia e espalhando
belezas no mundo, como tem de ser...
Sigo
seu exemplo, e estou aprendendo a dizer não, estou aprendendo a negar ajuda,
estou aprendendo a usar meu tempo, estou aprendendo a viver minha vida. Não é fácil, e nem
sempre as pessoas ao redor entendem, como eu mesma não entendi na época, mas
cada um tem seu momento dentro dessa trajetória maravilhosa que é viver.
Que a LUZ continue a me ajudar a discernir sobre quando e como dizer “nãos” e “sins”
Que a LUZ esteja com todos
Que a LUZ continue a me ajudar a discernir sobre quando e como dizer “nãos” e “sins”
Que a LUZ esteja com todos
* A ilustração acima se encontra no livro infantil "Psiquê" de Angela Lago http://criancas.uol.com.br/novidades/2010/03/12/historia-de-amor-entre-eros-e-psique-vira-livro-infantil-ilustrado.jhtm
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Armadilhas
Caminho
bem, tranquila, feliz, aberta, cheia de vitalidade quando, de repente, ela
aparece outra vez: a armadilha. No primeiro momento culpo o externo, a vida, os
outros, a situação. É natural, é o primeiro impulso se revoltar, colocar a
raiva pra fora, vociferar, praguejar, deixar as emoções fluírem, deixar os pensamentos viajarem em possibilidades,
hipóteses, fantasias. O segundo momento, pra mim, é canalizar essa energia: correr, nadar, meditar,
fazer yoga, encher os ouvidos de meus queridos amigos e de minha querida amiga
e terapeuta Maísa Intelisano, escrever, desenhar, compor, me expressar em alguma
maneira. Aí começa o alívio, mas a armadilha ainda me prende. É como se me
aproximasse devagar do monstro, com cuidado e respeito, sem o medo e
afastamento do primeiro momento, mas ainda sem conseguir enxergar a real
natureza da armadilha. O terceiro momento é o mais difícil, é encarar as
sombras, é reviver o que quero esquecer, é acordar aquilo que, por proteção ou conveniência, já nem me lembro mais. Meu terceiro momento é olhar com compaixão e
firmeza pra força destruidora, é falar pra ela: “Tudo bem, você está aí
gritando porque quer ter teu espaço. Já te encontrei, e agora vou encontrar um
lugar pra você: vou te colocar no devido
lugar!” É aí que me liberto e posso começar a recolher “os ossos”, iniciar o ciclo
de vida/morte/vida; o processo constante da construção-equilíbrio-remodelação.
Sonhei nesta semana que estava numa casa, numa sala
branca e sem móveis, com homens e mulheres que não conheço mas que sentia serem meus amigos. Estávamos em
silêncio, daqueles silêncios gostosos
que só cúmplices conseguem viver, e aí um cofre explodiu e estilhaçou os vidros.
Não ficamos perturbados, mas começamos a limpar a sala e voltamos ao silêncio,
mas o cofre explodiu outra vez, e junto com os estilhaços tinham resíduos
escuros, uma espécie de poeira gosmenta. Pensei: ”Ai, que saco, limpar outra
vez!” Mas meus amigos estavam tranquilos, tinham aquele sorriso de bem estar em
seus rostos, e me ajudaram a limpar a casa outra vez. E voltamos ao silêncio, à
plenitude dos doces silêncios compartilhados...
A
viagem é longa, constante, dura, e tem de tudo, desde estrelas luminosas até o
esterco mais fétido, e tudo isso precisa de um espaço, de um lugar, de
reconhecimento. Integração. Apanhei os ossos escolhidos, montei o esqueleto num local recolhido. Acendi o fogo sagrado e, observando a figura inerte, busquei na fonte, na intuição, a canção certa.
Encontrei a canção certa desta vez! Cantei, e os sons cobriram de carne, sangue
e pelos a estrutura. E ela/ele saiu correndo, viva/o e brilhante, livre,
audaz, feliz.
(
Quando for o momento, leiam – ou releiam - “Mulheres que correm com os lobos”,
de Clarissa Pinkole Estés)
sábado, 21 de abril de 2012
Quem de fato consegue relatar o fato?
Minha querida
terapeuta, Maísa Intelisano, já me perguntou duas vezes “o que é de fato?”. Na
primeira vez me esforcei ao máximo pra me distanciar emocionalmente, tentar
alcançar a experiência com racionalidade, tirando as vestimentas pessoais da
situação. Hmmm... Na segunda vez, me dei por vencida: impossível observar o
fato por si só; sempre serei eu a percebê-lo, por maior que seja o esforço de
isentá-lo das roupas pessoais. Algo interior, o mínimo que seja, deformará o
fato externo. (Externo?) Lembrei-me de dois livros que li há muitos anos atrás.
No “Mayombe” de Pepetela, um maravilhoso escritor angolano, ele descreve o
mesmo fato através dos olhos de várias pessoas de culturas diferentes. Preciso
reler o livro, mas do que me lembro, o “fato em si” tinha algumas pequenas
semelhanças nos diversos relatos, mas dependendo da maneira como eram
vistos/vividos, eram interpretados em maneiras completamente distintas, e
acabavam por provocar reações ainda mais diferentes. O outro livro é “Exercícios
de Estilo” de Raymond Queneau (esse encontrei disponível na net: http://pt.scribd.com/doc/58086474/Exercicios-de-Estilo-de-Raymond-Queneau-em-Portugues
) onde ele conta 99 vezes a mesma história banal em diversos estilos, e nem
sempre a gente consegue reconhecer de
fato “o fato”. Tendencialmente cubro os fatos com aquilo que chamam de fantasias...
Hmmmm... Prefiro dizer que são significados outros, às vezes incomuns, mas que
pertencem à minha realidade. Sei que às vezes estou com óculos cor de rosa,
outras com cinzas, ou amarelos, azuis... São minhas lentes, e sabendo que essas
lentes, apesar de serem reais, de fazerem parte da minha verdade, nem sempre
conseguem alcançar a realidade dos outros. Sabendo disso, procuro ouvir a
descrição das outras realidades, tornar cotidiano o exercício que fiz ao tentar
responder pela primeira vez a pergunta da minha terapeuta. Procuro entender o
que exagero, o que floreio, quais são as emoções que estão presentes na
interpretação do fato do momento e quais experiências passadas me levam a enxergar
dessa maneira; quais são os fantasmas, quais são as sombras, as neuroses que
distorcem os fatos. Outras vezes relaxo, e só me deixo sentir o frescor do doce
vento de outono. Sim, é apenas um vento, mas é fresco, doce e aqui está, nesta
estação.
domingo, 8 de abril de 2012
Só sei que nada sei
Sei que nada sei, nada sou, nada tenho. Quando essa consciência se faz presente – infelizmente nem sempre é assim – sei que estou sob o domínio da liberdade, do lúdico, do amor, do poder tudo. O medo desaparece pois sei que nada sei, nada sou, nada tenho. Mas tudo posso! Sem apegos, sem calcular riscos, deixando apenas pro coração decidir - ou deixar fluir - quais caminhos trilhar. Doces momentos em que sei que nada sei, nada sou, nada tenho.
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