Quando tinha 19 anos meu pai parou de pagar a faculdade de música: “Bêtê, música não é pra qualquer um. Teu pai não é rico, você precisa arranjar uma profissão que te sustente.” Tentei retrucar, mas ele acabou por me dizer que eu não tinha tanto talento assim. Parte de mim acreditou, outra não, e acabei ingressando numa faculdade pública e arranjando trabalhos com música pra pagar meus gastos. A pressão continuou. Tudo aquilo que não conseguia pagar com meu próprio dinheiro e tinha a ver com a música, era negado, até as aulas com o Koellreutter que parei na época do plano Collor, quando fui demitida da pizzaria que tocava. (Primeiro foram despedidos os manobristas, depois os pianistas...). Mas insisti mesmo assim. Terminei a faculdade de música, saí do Brasil, vivi a maravilhosa experiência com a Associação Cultural Cantosospeso, tive uma excelente formação com o Martinho Lutero e realizei os sonhos que tinha. Voltei pro Brasil sem um centavo, sem trabalho, mas com a perspectiva de ingressar no mestrado, e com a única possibilidade de morar outra vez com meus pais. Mais pressão. Com tudo o que estava acontecendo na minha vida, ainda tive que ouvir: ”Você fez muita música bonita, só que ainda não consegue se sustentar.” Comecei do zero econômico, outra vez, mas não desisti dos meus sonhos, mesmo porque nem tenho como desistir; a música está presente 24 horas por dia, é a única amarra que permito. Hoje entendo meu pai, ele agiu da melhor maneira que podia: quem não tem a música dentro de si é incapaz de entender que não dá pra ser outra coisa. Ela fica grudada o dia inteiro na gente, a cada gesto, pensamento, sensação. Não adianta driblá-la, porque logo vem a cobrança: são os dedos que não deslizam no piano, a voz que desafina, a inspiração que some. Meu pai até tinha razão de que música não é pra qualquer um - a música como profissão - só não sabia que independe de ter ou não pais ricos, porque pra ser músico é preciso estar disposto ao sacrifício. Quem é músico entende o sacro ofício.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Livre associações ou Ne più soavi, ah, tacci!
Ne più soavi, ah, tacci! Tacci, tacci... Thaty era o perfume da adolescência. Azul como o Curaçao Blue, o céu, a Betty Blue, as roupas, as águas, Iemanjá e os olhos que os garotos fantasiavam e se decepcionavam ao enxergar o castanho-esverdeado na loira bastarda. Pensei que os teus eram negros, ochi chyornie, mas eram castanhos, nem tão escuros quanto desejava. De perto a realidade é outra, e as medidas e distâncias são imprecisas. Trompe l’oiel. As percepções afinam ou distorcem objetos, criam verdades passageiras daquilo que é, e pra complicar mais, o que é está em movimento. Só consigo fotografias, um trailer de imagens ordenadas da maneira como a memória me traz agora, neste momento, que .... Ih! Já passou! Ne più soavi, ah, tacci! Tacci, tacci... Cala a boca! Se você pouco entendeu, imagina eu? Para com isso! Nada de abraços e beijinhos sem ter fim, porque acabou nossa história e você, ah, tacci! Será que você gostou de mim? Ir prum cantinho com o violão, cheio de amor no coração, foi o suficiente? Você tem pouco de nuvem passageira, vai e volta, vai e volta, vai e volta... E quem é que era o cristal bonito? Quem é que se quebrou? Jamais escreveria teu nome numa pedra, apesar de caber muito querer em meu coração, Samurai. Só sei que passarinho quis pousar, não deu, voou; and now, cara pálida, o que faço com essa paixão que me devora o coração? Ne più soavi, ah, tacci! Tacci, tacci... Será que são as histórias de amor que inspiram as músicas ou as músicas que inspiram as histórias de amor? Hmm, então tá, será... Será que preciso ouvir novas músicas? E se deixar de ouvir músicas que falam de amor? E se daqui pra frente só ouvir música instrumental? Ne più soavi, ah, tacci! Tacci, tacci... http://www.youtube.com/watch?v=wAPxEW16SCA
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Do longo inverno ao fluxo dos benefícios recíprocos
O longo inverno é consequência de um acidente: estava a 200km e de repente freei. Se fosse um fato concreto incidiria diretamente no físico e estaria hospitalizada, só que enxergar o fato psicológico não é fácil. A vida, porém, é sábia, e me tirou tudo naquele momento: estava fraturada emocionalmente, incapaz de assumir responsabilidades condizentes com a maturidade intelectual e profissional. Lógico que naqueles anos sequer entendia o que estou falando agora, mas foram muitos anos, e chegou uma hora que parei de me debater, de reclamar, e aceitei o que a vida trazia. Aceitei, mas também continuei a semear o que queria, a trabalhar, a procurar novos caminhos; e quando falo em aceitar é encarar de frente a situação real e procurar beleza no que é oferecido, sem esquecer dos sonhos. Voltei a me aproximar da espiritualidade, passei por vários grupos até encontrar um que falasse minha lingua, e encontrei o IPPB (www.ippb.org.br), onde se trabalha a espiritualidade em maneira universal, sem preconceitos, sem dogmas, em maneira livre e aberta; que reconhece a manifestação do divino em todas culturas. Ali encontrei as ferramentas que precisava pra desenrolar os nós e encontrar o fio que conduz às essências. Muitos nós foram desatados, e o trabalho é contínuo, mas posso dizer que saí da fase de reabilitação, e a vida tá aí pra mostrar isso. Entrei no fluxo dos benefícios recíprocos. Lembro que tive uma aluna muito difícil, que hoje é deliciosa e grande amiga, mas na época dava vontade de sair correndo, e só não a abandonei porque me pagava muito bem e precisava daquele dinheiro. É, a vida foi legal comigo... Era tão difícil dar aulas pra ela, briguei várias vezes com a figura, e não sei porque sempre queria que voltasse! Foi por causa dela que comecei a me preparar energeticamente antes das aulas, a fazer o que tinha aprendido no IPPB mais umas coisinhas por intuição, como antes de iniciar as aulas me concentrar no pensamento: “Que seja em benefício de todos.” Pronto. Entregue. E nessas de chamar relacionamentos e situações que sejam benéficas ao TODO, mesmo que o benefício não seja evidente no momento, e que não seja exatamente aquele que espero, trouxe leveza no coração, serenidade pra usar o livre-arbítrio. O longo inverno passou; já sinto o cheiro da primavera.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Ok, me rendo.
Ok, me rendo. É a vontade do Espírito Santo. Será? Seja como for, ou o que for, parece que é. É alguma coisa que foge à razão. É algo que explode, queima, arde e ao mesmo tempo aconchega o coração. Cura velhas feridas; abre novas. A vida diz sim e não. A persona ideal tenta apagar a chama, enquanto a pureza a envolve com seu manto dourado. A máscara encontra motivos mesquinhos, inventa histórias absurdas, hiperboliza o lastro de verdade e fantasia situações que a protegem, que afastam o perigo da perda de domínio, da queda de seu falso poder. Enquanto isso, lá no fundo, reina tranquilo o Amor. Absoluto. Longe das águas turbulentas que golpeiam a ponta do iceberg. Não pede nada, não quer nada. Existe. E essa existência soberana incomoda o que penso ser, o que penso desejar, as estradas que criei e por onde quero trilhar. É tanta LUZ que a couraça está derretendo. Preciso aprender a abandonar com carinho esses pedaços de gelo que se desprendem. Preciso aceitar e não pensar, nem tentar entender já que me sinto sem recursos pra tanto. Ok, será que consigo me render?
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Difamação, ética e poder da palavra
Em 2007 uma pessoa covardemente espalhou a mentira de que estava envolvida com drogas. Por sorte, meus amigos me ligaram e pude dizer que meu “sumiço” devia-se ao fato de meu pai estar hospitalizado por doença terminal. Enquanto meu único contato com as drogas era ver meu pai recebendo morfina pra aguentar as dores do câncer generalizado, o difamador lançava seu desamor pelos ares na surdina e, como todo picareta, ficou escondido atrás da fofoca que criou. Na época não respondi nada, porque meu pai saiu do hospital, veio pra casa, e eu, minhas irmãs e um enfermeiro nos revezávamos para dar a assistência pra ele: eram remédios, limpeza de excremento, banho; 24 horas de atenção pra tentar dar qualidade pros seus últimos momentos de vida. Parei de trabalhar, sumi do mundo e me dediquei só ao meu pai. Quem já cuidou de uma pessoa que ama em graves condições de saúde, que está se despedindo com dores horríveis dessa vida, sabe o que passei. O mau caráter que me difamou talvez não saiba. Agora aconteceu de novo, uma insinuação de uma pessoa que não me conhece (óbvio, se me conhecesse não diria isso publicamente pois sabe que vai ter que provar !!! ). Quero parar essa história por aqui, seja através de uma retificação oficial ou através de um processo contra difamação.
Excluí o cara do facebook; que ele seja iluminado pelo poder divino para que use melhor suas palavras e discernimento.
Fico com os amigos, com aqueles que tem brilho, que usam suas vidas pra transformar esse mundo, que trazem belezas, que me encantam com suas observações inteligentes, que tem amor no coração, que são sensíveis, que trazem novos significados, que percebem e signficam detalhes e que são honestos, verdadeiros, dignos e que usam com critério as palavras; fico com os amigos, os que desenvolvem relações de benefício; fico com os amigos, aqueles que amo.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Vários nomes, várias facetas?
Percebi que cada um me chama como quer, e eu atendo, como um gato... Do nome de nascença, Elisabete Just, derivam os Bete, Bétchi, Bêtê, Bétê, Betinha, Elizabeth, Beth, Elisabetta, Betta, Betina, Betóvski, Betonilda, Bebé, Tobé, Elisa, Elis, Eli; e aqueles que escolhi: Bett Just e Elisabet Just, os artísticos. Tem aqueles carinhosos que nada tem a ver com o nome original, como Nenê Ativo, Gikinho, Ratixa, Puff, Psita; e os ofensivos: Bicho de Goiaba, Bicho, Lagartixa, Branquela. Tá tudo ok, só não me chamem de loira.... Loira, não dá! Mas o dono da padaria insiste nisso... Já pedi, com educação, já falei meu nome e por quase um ano ele respeitou minha vontade, mas acho que o cara se esqueceu e voltou há mais ou menos um mês a me chamar de loira. Um saco! Quase todos os dias, durante um mês, ouvindo Loira, Loira, Loira! Arrrrrrrghhhhhhh!!!! Na boa, hoje perdi a paciência e assim que ele soltou o sonoro “E aí, Loira, tudo bem?”. Respondi: “ Tudo ótimo, Grisalho!”, com a mesma intensidade e volume. Breve momento de tensão. Ele foi até a cozinha, e logo voltou sorridente: “Béti, vou servir o café que você gosta!”
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