quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Coração FB


                Algumas vezes respondo ou comento  uma situação no FB usando a forma do coração, e isso quer dizer, SINCERAMENTE, que estou sentindo um troço legal, uma onda de amor, um sentimento bonito. Não quer dizer que esteja apaixonada por uma pessoa,  tem mais a ver com um estado de espírito, uma relação com o viver, gratidão. Não sei como expressar direito, só sei que quando sinto uma coisa gostosa na região do coração, uso esse símbolo pra exprimir aquilo que não consigo com as palavras e que talvez também não consiga com o <3 ...
                Nem sempre as pessoas entendem ‘coração’ como procuro expressá-lo, e até já acabei me afastando de uma pessoa muito querida por causa dessa falta de compreensão, ou melhor, porque além de não compreender ainda queria que eu mudasse minha maneira de expressar.  Foi bem chato. Ele me chamou de superficial, hipócrita e falsa, só porque no meio de uma discussão confusa quis enviar um coração... Quis enviar, mas não enviei! Falei que iria colocar um coração em nossa conversa, mas aí ele foi tão grosso com suas acusações,  disse pra que mudasse o que iria escrever debaixo de uma sutil ameaça etc, que pensei comigo: “quer saber? fui.” E fui, saí da vida dele e o tirei da minha, na melhor maneira que consegui fazer isso. Estava no momento de tolerância zero. E ainda estou.
                É uma questão de sintonia, de momentos de vida; é uma questão de cuidado, cuidado com o ouro do coração que está dentro de todos nós. Os corações, quando estão amargos, não conseguem receber o calorzinho gostoso desse símbolo e, conscientes ou inconscientes, jogam areia  nos corações que estão brilhando. 


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nam myoho renghe kyo



         Em fevereiro de 2007, tive uma experiência que transformou minha vida: percebi, pela primeira vez, o Daimoku (1), o mantra (2) do budismo de Nitiren Daishonin (3).
         O legal é que deve ter umas figuras por este mundo afora que, além de gostarem bastante de mim e terem suportado anos de ceticismo e pensamentos materialistas, também me conhecem muito bem e sabem como me conduzir, pois o caminho que me levou a viver esse momento espiritual decisivo foi motivado por desejos tão mundanos...
         Uma semana antes do acontecimento que me abriu as portas para uma reaproximação com aquilo que chamo de divino, fui ao ensaio da bateria da Escola de Samba Rosas de Ouro, e conheci o tio do namorado da minha sobrinha. Estava com muita dor nos ombros, porque no dia anterior tinha caído de mau jeito no Aikidô (4), tinha tomado muito remédio pra passar a dor física e afetiva, pois  naquele mesmo dia havia colocado um ponto final numa história com um rapaz que estava saindo e que descobri – por acaso! – que tinha uma namorada. Estava bem jururu, bem dolorida, e sem nenhuma vontade de sair de casa; além de tudo, não gosto de multidão, não sei dançar e, apesar de gostar de um bom samba, naquele dia estava mais afins de ouvir minha ópera preferida ou alguma canção de dor de cotovelo cantada pela Elis Regina. Mas os sobrinhos insistiram tanto – e queriam tanto ajuntar os tios recém-separados - que resolvi aceitar o convite e cair no samba.
         Chegando lá, conheci o Tio. Um cara super legal, que até conseguiu me fazer dançar  no meio da quadra, junto com a moçada que ensaiava pro desfile. E entre um tum-tum-Tum-tum, tum-Tum-tum, tum-Tum da bateria, no meio daquele alvoroço e gritaria de gentes alegres e suadas, entre uma “breja” e outra, descobri, sei lá como, que ele era budista. E foi tudo tão legal naquele dia, e o cara era tão gente boa que combinamos um novo encontro, só que num outro tipo de “escola”.
         No sábado seguinte, o último antes do carnaval, o Tio me levou pra uma reunião budista. Chegamos uns quinze minutos antes de iniciar a palestra, e umas três ou quatro pessoas já estavam fazendo o Daimoku. O som que vinha da sala era muito agradável, e senti-me atraída. Meu novo amigo era budista havia mais de vinte anos, e percebi que estava ali a trabalho; então, pra deixá-lo à vontade, sentei-me entre as outras pessoas na sala principal – que naquele momento já contavam mais ou menos dez vozes - e comecei a entoar o mantra, enquanto a moça sentada ao lado apontava, atenciosamente, as palavras que falávamos em grupo.  O som ia ficando cada vez mais bonito, porque cada vez mais gente o cantava, e apareciam novas harmonias apesar das palavras serem sempre as mesmas, faladas/cantadas ao mesmo tempo, mas em diferentes entonações. Parecia um coral, mas tinha um sei lá o que a mais, que  não sabia explicar, só sabia sentir. E lá fiquei, cantando de olhos fechados, sentindo aquelas vibrações, junto aos outros quarenta sons humanos que foram aparecendo.
         Desde então, os sons daquelas palavras pertencem aos meus pensamentos.
         No dia seguinte, acordei com a lembrança daquela “música coral” que repetia, a várias vozes, insistentemente, Nam myoho renghe kyo (5), numa espécie de compasso ternário (6).  E no outro dia também, e nos outros, idem. E aí começaram a acontecer coisas estranhas, ao menos para aquela pessoa que fui.
         Comecei a freqüentar as reuniões budistas, a ler sobre budismo e a fazer o mantra todos os dias pela manhã. Só que ele também aparecia em meus pensamentos quando bem entendia! E geralmente pra afastar maus pensamentos... Era só começar a pensar em besteira, que ... zapt! Nam myohorenghekyo, nammyohorenghekyo , nammyohorenghekyo, vinha a melodia na minha cabeça. E aí comecei a usar esse “truque” de forma consciente: quando aparecia algum pensamento indesejado, pensava no mantra. Isso foi me deixando cada vez mais tranqüila, cada vez mais em paz, e olha que nem podia imaginar que existia tanta paz nessa vida!  E o mais engraçado de tudo é que só fazia o mantra porque gostava do seu som, mas não tinha a menor idéia de seus benefícios pois ignorava completamente o poder que despertamos ao pensar nesses sons, nesses símbolos sonoros sagrados.
         Mas o mais bonito que o mantra me ofereceu, foi uma maneira especial de amar.
          Começou a acontecer depois de um ou dois meses de prática. Ao fazer o Daimoku, sentia-me invadida por um sentimento indescritível, uma sensação de bem-estar única, que meus sentidos traduziram com a palavra AMOR, e parte deste sentimento se direcionava, naturalmente, aos meus pais.
         Desde a adolescência, por incompatibilidade de personalidades e visões de mundo, tive um relacionamento péssimo com meus pais, e só vinha piorando com o passar dos anos. Ninguém mais pensava em concertar, ou conseguir uma compreensão mútua, ou ao menos tolerância.  Estávamos todos tão magoados pelos anos de brigas, que nenhum dos três estava disposto a dar um único passo que fosse no sentido de construir um relacionamento sadio.
         E a situação poderia ter ficado assim, se não fosse a transformação que aquele mantra começou a fazer em mim.
         Foram vários dias consecutivos que vinha forte, durante a prática do Daimoku, aquelas ondas de amor, amor por tudo e todos, e também pelos meus pais. Começaram a brotar frases em minha mente,  sentia-me impingida a comunicá-las aos meus pais; era muito mais forte que meu orgulho. E foi isso que fiz.
         Cheguei um dia na casa deles, e disse, com aquele sentimento que saía do coração e harmonizava o ambiente, aquilo que aparecia na mente enquanto cantava o mantra, que os amava, porque eles me deram o que existe de mais precioso neste mundo: a oportunidade de viver.
         Depois de menos de um mês, meu pai entrou no hospital porque quebrou o fêmur em uma queda, e aí foi diagnosticado um câncer em fase terminal. Em três meses ele abandonou seu corpo físico.
         Foi a primeira vez na vida que presenciei alguém sofrendo sem que pudesse fazer nada pra fazer parar a dor. Foi a primeira vez que cuidei de um doente terminal.  Foi a primeira vez que, aquilo que chamam de morte, estava ao meu lado. E aquele era o meu pai. Contudo, reinava uma harmonia sincera, tão recente, e fundamental para manter a calma naquela situação de despedida. 
         Hoje sei que o TODO, ABSOLUTO, UNO, DEUS, ENERGIA FUNDAMENTAL, existe, seja lá qual for seu nome. Não sei descrever essa FORÇA pois considero insuficientes meus parâmetros humanos; só sei que existe pois o senti, porque as estradas de luz apareceram no momento exato, antes da hora em que mais precisei, quando ainda nem desconfiava do quanto seria necessário conhecer com o coração.
         Hoje, além do Daimoku e de outros mantras, das meditações, leituras, orações, também expresso uma palavra, em português, quase um mantra, ao acordar, ao adormecer, e em outros momentos ao longo do dia. É bem simples, e quando falamos com o coração, parece que a vida nos compreende:
Agradecida!

(Escrito em 06 de outubro de 2008)


1. Daimoku  é o nome dado ao ato de recitar continuamente o Nam myōhō renge kyō, mantra do budismo de Nitiren. (do site Wikepedia -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Daimoku
2. Mantra - do sânscrito Man (manas - mente) e Tra (controle ou equilíbrio). Wagner Borges fez uma belíssima tradução desta palavra em sua palestra do dia 26 de setembro de 2008, no IPPB ( www.ippb.org.br ) : Pensene de poder. (Pen = pensamento; sen = sentimento; ene = energia).
Cecília Valentim, em seu Livro-Texto e CD – círculo de prática de mantras – MATRIKA, diz que mantra significa “o som que liberta a mente” (p. 8)
3. Nitiren ou Nichiren (16 de fevereiro, 1222 - 13 de outubro, 1282), nascido Zennichimaro , mais tarde Zeshō-bō Renchō e algumas vezes chamado de Nichiren Shōnin ou Nichiren Daishōnin , era um monge budista do Japão do século 13. Fundou o budismo Nitiren, um importante segmento do budismo japonês que engloba dúzias de escolas de diversas interpretações doutrinárias. Antes de falecer entretanto deixou documentos transferindo seus ensinamentos a seu discipulo Nikko que construiu um templo chamado de Templo Principal Taisekiji, onde é a sede da Nichiren Shoshu. (do site Wikepedia -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Nitiren_Daishonin )
4. Aikidô – Do japonês: Ai : harmonia, Ki : energia,  : caminho; caminho da harmonização das energias. (do site Wikipedia : http://pt.wikipedia.org/wiki/Aikid%C3%B4 )
Luta marcial japonesa, onde não existe competição e seu treino estimula os sentimentos de fraternidade e cooperação.
5. Nam myoho renghe kyo – É um mantra de signficado complexo, extraído por Nitiren Daishonin do título da tradução japonesa do Sutra de Lótus (Myoho-renghe-kyo).
Nam é a única palavra não japonesa do mantra e vem do sânscrito Namos, que significa devoção, dedicação, reverência.
Para uma explicação mais detalhada, recomendo o site da  Vertex: http://www.vertex.com.br/users/san/daimoku.htm
6. Digo espécie de compasso ternário  (onde o primeiro tempo é mais forte que os dois últimos), pois tenho consciência de que são meus ouvidos ocidentalizados que colocam este padrão no mantra. Talvez os povos de outras culturas o ouçam  e o reproduzam  em maneira diferente.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Todo sabiá-laranjeira um dia para de cantar


                “Mãe, tem um passarinho morto!” – gritou a menininha maior que nadava na piscina.

                É, ele estava morto, um pequenino cadáver de sabiá-laranjeira que a miopia dos olhos sem lentes me fez confundir com uma folha. Só foi saber da notícia pra começar a sentir o cheiro da putrefação, um asco em saber do corpinho inerte, sem vida, sem alma, sem brilho. Coloquei os óculos e senti um grande nada ao ver a matéria que um dia se comportou como pássaro. As crianças, porém, estavam tristes;  a mãe estava sem saber o que fazer e olhava pra mim, talvez pra intuir através da leitura da minha face alguma ideia do que dizer ou pensar. Senti-me constrangida, como se devesse dar algum parecer, então soltei a pérola “É, um dia tudo morre.” Como disse minha sobrinha, se não tem nada pra falar, tosse. Perdi a chance de tossir... A menorzinha olhou-me com aqueles olhos grandes, aqueles que prenunciam as interrogações infantis, e por frações de segundo  imaginei como seria possível tranquilizar o pequeno ser a respeito daquilo que chamam ‘morte’, a  transformação  de tudo e de todos,  já que eu mesma não me sinto assim tão preparada.  Fiquei ainda mais aflita quando notei  o olhar da pequena mudando feito zoom em direção à sua mãe... Ai, ai, ai... passarinho duro e estendido = morte;  adulta disse que tudo morre, logo minha mãe...  Coff, coff !!!  Podia ter sido tarde demais se a mãe das garotas não tivesse concordado prontamente, como boa professora de matemática do curso de engenharia: “É, tudo morre; hoje foi a vez dele.” Talvez sem perceber a angústia da filha menor, ou talvez por saber dessa tendência e por opção escolher desdramatizar, o papo continuou sobre as hipotéticas causa mortis do bichinho: voou e bateu a cabeça na quina; estava se sentindo mal, resolveu beber um pouco de água e morreu ali mesmo; foi envenenado pelo cloro, etc.  A mãe e a maior estavam animadas, a pequena, um pouco menos; eu, viajando por outros pensamentos...

                Em algum lugar perdi a leveza que tinha em relação ao que acaba; acho que foi no momento em que me apeguei a alguém, ou alguma coisa, alguma ideia, alguma maneira de viver, sei lá ao que me apeguei, sei apenas que senti apego e senti a dor da perda, e que gostaria de não sentir mais essa dor.  Entendo racionalmente a finitude, mas não suporto o processo inevitável que leva as coisas que amo pra longe. Aceito o fato consumado, as carcaças, a matéria inerte, mas não sei o que fazer com aquilo que está apodrecendo. E vou ter que aprender a lidar com isso, com os sabiás-laranjeira que um dia deixam de cantar. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Por um fio



Por que você não veio me salvar de mim?
Por que você não apareceu antes do último momento?
Por que você me deixou partir?
Por que você não duvidou de nada?
Por que você aceitou passivamente, como se fosse fato, como se eu estivesse absolutamente certa?
Por que você me deu razão?
Por que você se escondeu atrás da sua fragilidade de macho?
Por que você me fantasiou com armadura de ouro?
Por que você me superestimou?
Por  que você só quis a deusa?
Por que você não conseguiu me enxergar como mulher, menina, ser humano, ou qualquer coisa mais natural e falível?
Por que você me deixou quebrar?
Por que você não impediu a fuga?
Por que, meu Deus, por que você deixou o tempo passar?

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Em companhia de sacos


          
Estão a carregar sacos, feito papais Noel.

         Um é gordinho, negro, usa óculos e diz que adoçante líquido mata enquanto aqueles que estão no saquinho de papel, ah, esses fazem bem. E fica repetindo enquanto aponta o dedo: "Esse mata, esse faz bem" E repete, repete, repete... A outra é pequenina, magra, quase anã. Tem longos cabelos emaranhados castanho-avermelhados que contornam um semblante sério. No topo da cabeça ostenta uma horrível toca de lã pontuda que a protege do frio ou do sol à pino ou da chuva. Parece um duende. Minha memória até insiste em vesti-la de verde.

         O sem nome entra na padaria sorridente, se faz notar sem palavras, nem precisa! Ele – ENORME - e seus sacos – ENORMES - ocupam espaço, um espaço de tons escuros  como sua pele, suas roupas, seus óculos, seus sacos. A sem nome vagueia pelas ruas com passo decidido, parece ter pressa, talvez pressa em levar seus sacos pra sabe-se lá onde. Ela não para, sempre que a vejo está em movimento, só não parece voar porque ao invés de asas carrega nas costas sacos de lixo pesados, uma fada da sarjeta.

         Os dois são sujos e fedem e se afastam de todos e afastam todos de si. 

Só tem a companhia dos sacos. 


*Gravura: "Os mendigos", de Bruegel (1508)


sábado, 1 de setembro de 2012

Proatividade e reatividade



            O pró-ativo antecipa e se responsabiliza pelas próprias escolhas e ações frente às situações impostas pelo meio, enquanto o reativo espera as coisas acontecerem e... reage. Todo mundo tem essas duas partes e suas diversas nuances à disposição, mas também existem pessoas que carregam em suas personalidades a predominância de um desses polos.

            A tendência do pró-ativo é enxergar os problemas antes de acontecerem, e num mundo onde impera a reatividade ele se torna um ser isolado, como no mito de Cassandra, condenada por Apolo a prever os fatos e ninguém acreditar nela.

            Aquele que traz em si um grande percentual de proatividade não é um ser superior, muito menos dotado de capacidades paranormais, apenas enxerga o todo com maior facilidade, com certa distância de sua própria personalidade, consegue – ou é condenado a conseguir – colher informações e emoções que passam desapercebidas em geral.  Talvez seja mais atento e menos centrado em seu próprio ego, vai saber.

            Aquele que traz em si maior percentual de reatividade simplesmente não compreende o pró-ativo: lógico, é provável que as coisas de fato ainda não tenham acontecido, ou o reativo ainda não conseguiu ver as coisas como são, porque estão escondidas com densos véus.

            Enganos nos dois polos existem: às vezes o pró-ativo exacerbou uma semente, real, mas que ainda não germinou nem cresceu e pode muito bem ser extirpada, e o reativo nem sabe como reagir e perde as estribeiras; mas às vezes o pró-ativo acerta no alvo e o reativo “se defende” como pode.  

            São muitas as diferenças de ação, pensamento e sentimentos que distanciam seres pró-ativos e reativos. Enquanto o reativo se defende, pois traz o mundo pra si, considera o externo como um perigo a ser enfrentado e que esse externo o ataca em maneira pessoal, o pró-ativo propõe novas possibilidades, soluções, não consegue levar as coisas pro pessoal porque lhe grita forte uma consciência interna que cada um está trilhando seu próprio caminho; ao mesmo tempo em que separa sua personalidade dos fatos, seu interno e o externo, sabe que o TODO está em tudo, e que interno e externo são uma coisa só, separáveis apenas neste plano da dualidade. Parece contradição, mas acredito que as pessoas que exercem a proatividade entendam o que estou falando. Ou não? 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A última vez que te vi



Lembro a última vez que te vi, sentado ao piano, 
corpo moreno em vestes creme compondo 
elegante degrade com as teclas. 

Contrastes suaves, contrastes fortes... 

Contidas pelas persianas doces espadas de luz iluminavam 
a cena, iluminavam sons profundos, 
iluminavam os prateados, 
realçavam suas luzes. 

Aproximei-me devagar para sorver até a última gota daquele instante. Sei que os instantes são únicos, 
tendencialmente vivo o belo com intensidade... 

Aquele momento foi único;  
é único na medida em que recupero, agora,  impressões vívidas guardadas nas memórias, trazidas à tona, reformuladas, redimensionadas, com novas roupas, mas que conservam a inteireza suspensa dos eventos mágicos, do encanto.  

Sem perder o foco caminhei lentamente ao seu encontro 
feito zoom, fruindo o leque de sensações que 
o quadro em movimento  despertava.  

Meu silêncio de gato não funciona com quem tem percepções despertas, então você se levantou pra me receber. 
Nada se quebrou, mas seu olhar trouxe suas palavras 
antes de serem expressas. 

Almas se falam. 

Almas sintonizadas.


             Ainda não compreendi com os parcos meios terrenos, não me importo com isso. Às vezes é assim, milenares amigos que se encontram, se reconhecem, que se sabem apesar de vidas, das atuais vidas, tão diferentes. É um saber de verdade, da natureza profunda, muito além dos caminhos traçados nesta fase, além das escolhas feitas nesta etapa. Encontros de amor incondicional. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Quando o emaranhado de fios de lã cinza prendem as pernas


        Parecia tudo bem, colorido, quando o emaranhado de fios de lã cinza prendaram minhas pernas outra vez. Identifiquei o gatilho, mas já era tarde demais. Uma vez desencadeado o processo é difícil, quase impossível transformá-lo. Tentei enfrentar o medo, coloquei-me em movimento, usei inúmeros argumentos racionais, éticos, mas o corpo se mostrou autônomo em sua debilidade. Fui invadida por ânsias, dores de cabeça, a visão começou a turvar. Dei meia volta, fui até onde era possível. Parei. Quando parei, chorei. Chorei muito. Sentia-me cansada, exausta, triste por deixá-los vencer;  inconformada por lhes presentear um dia, um meio dia que seja, do valioso tempo da vida; sentia-me culpada por deixá-los impedir encontros e compromissos;  sentia raiva em deixar vitoriosos os sabotadores de felicidade.  Por fim, simplesmente aceitei. 
        Conversando com minha irmã – finalmente aprendi a receber ajuda! – entendi melhor o que estava acontecendo. Desculpei-me, comigo e com os outros, relaxei. Consegui me perdoar. Da próxima vez que avistar os novelos cinza desenrolando seus fios pra me segurar, espero ser outra, mais hábil, mais forte, melhor instrumentalizada. Tomara que consiga ter em mãos uma paleta rica em nuances para transformá-los em arco-íris com amorosas pinceladas. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sabiá-laranjeira


    
    
    No meio do barulho dos carros, motos, dos gritinhos infantis brincando na escola, do zun-zun-zun das pessoas conversando no celular e da furadeira esburacando o prédio, um sabiá-laranjeira esbanjava suas melodias. 

   Parei. Procurei o bichinho. Fiquei lá, encantada, olhando pra cima, entre a padaria e minha casa. O mocinho estava no meio de galhos secos, estufando o peito alaranjando e soltando o verso. Momento de suspensão, um milagre. Não pensei nada disso que estou falando agora, só olhei e ouvi. Inteira. Una. Identificada. Me senti sabiá-laranjeira... Fiquei com vontade de assobiar, cantar, de harmonizar sons e criar uma sinfonia pássaro-humana... Só que, estranhamente, senti vergonha! E quando olhei pro lado tinha uma figura olhando estranho praquela que tira fotografias do céu, que fica rindo pras flores, que brinca com o cachorro preso na casa de ninguém, que sorri pra quem não conhece, que brinca com as crianças, que faz yoga no parquinho, que medita na piscina, que agradece todos os dias à vida, ao Sol, ao TODO, que sai por aí assobiando, que fala bom dia, boa tarde, obrigada, assim, só porque dá vontade.

     Talvez tenha ficado com vergonha de me sentir tão bem, e de saber que aquela figura se manteve distante, com seu olhar reprovador, mas não chegou perto por falta de sintonia. Talvez tenha ficado com vergonha por ter essa predisposição a colher belezas, e por saber que aquela pessoa vive sempre a se lamentar, e que, apesar de estarmos no mesmo lugar, ela sequer ouviu o sabiá-laranjeira. Ou talvez tenha ficado com vergonha por saber que insensíveis só estariam vendo mesmo uma louca olhando pra cima, parada no meio da calçada e rindo.

    Ao sentir vergonha me desconectei do passarinho. Ele também parou de cantar. Saí do estado de plenitude só porque alguém vive em maneira diferente. Que besteira me importar com o que podem pensar – e falar - de mim...  
     
    Em alguns minutos colhi preciosas informações da vida. Obrigada sabiá, contigo aprendi que posso espalhar meus cantos, expressar minha alma, simplesmente ser, independente dos rumores externos; obrigada figurinha, com você entendi que só depende de mim preservar momentos de encanto.  

domingo, 22 de julho de 2012

Kamenskoye ou Dniprodzerzhynsk


        Papai, ucraniano de Kamenskoye, renomeada Dniprodzerzhynsk em 1936, conterrâneo de Brejnev, adorava a chamada “música clássica”... Ele nasceu em 28, filho de aristocratas que permaneceram na terra natal e sobreviveram à matança dos anos que seguiram a revolução de 17. Brejnev, ainda jovem mas já com cargo importante, resolveu criar uma universidade em sua cidade e meu avó saiu da prisão pra dar aulas de literatura e línguas estrangeiras. Reza a lenda que ele falava e escrevia com fluência 7 línguas, pois era o representante internacional das vendas de ouro das minas da família, que foi assassinada na revolução enquanto ele fazia negócios em Paris. Papai dizia que meu avó só tinha sido chamado pra ser professor na faculdade porque os “comunistas” não tinham outra opção depois de terem acabado com a elite cultural do país... Pontos de vista...Mas lá pro finalzinho da sua vida, finalmente ouvi algo de positivo saído de sua boca sobre aquele sistema, aquela ideologia, aquele “ismo”, que tanto nos distanciou.
         
         Ouvindo juntos a nona sinfonia de Beethoven, regida por Karajan, pela milionésima vez, papai abaixou o som, pediu lápis e papel e, com as mãos trêmulas, fez o desenho acima. Finalizado o desenho (sim, ele fazia uma coisa de cada vez, de um jeito bem europeu.  Como queria ter aprendido isso...) me explicava, com aquele sotaque teuto-ucraniano que nem os cinquenta anos como brasileiro conseguiram apagar: “Bête, antes da revolução, o povo de Kamenskoye vivia debaixo da terra. Escavavam um buraco e colocavam esterco pra segurar as paredes; construíam uma lareira que também servia como saída de ar, e conseguiam assim afastar o frio. Os comunistas destruíram essas favelas subterrâneas e construíram moradias simples, mas melhor equipadas, pequenos prédios de três andares que abrigaram essas pessoas. Primeiro construíram as novas casas, mudaram o povo pra lá, e depois destruíram as favelas. Em cima delas, das antigas moradias, construíram parques pro povo passear, e nesses parques tinham coretos onde todos os domingos se apresentavam orquestras que tocavam Rachmaninoff, Tchaikovsky, Prokofiev.Era a nossa única diversão.”

         Em 1936 os policiais invadiram de madrugada a casa dos meus avós e levaram, na porrada, meu avô pra Sibéria, debaixo dos olhares e súplicas da vovó e das crianças. Essa ação fazia parte da “limpeza” instaurada por Stalin. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As portas se abriram: entrei no domínio do AMOR



                   Entre amigos, apareceu a conversa sobre mediunidade, e enquanto as pessoas relatavam as percepções que os cinco sentidos não dão conta, bebiam uísque e cerveja. Pensei com meus botões: “será que elas não sacam que assim atraem uns serzinhos de baixa vibração?” Na mesma hora bateu aquela vontade de fumar um marlboro light... Ri sozinha. É assim, cada um com sua LUZ, cada um com sua sombra; nenhum anjo, nenhum demônio. Humanos, simples humanos. Trabalhadores da LUZ? Sim, tantos se esforçam nesse sentido, mas será que sabem realmente o que estão fazendo e pra quem estão fazendo?  Inspirações, insights, intuições, premonições, projeções da consciência...  quem as interpreta? Você, eu; seres humanos.  Interpretamos de acordo com aquilo que somos, com nossa consciência. Uma linda frase do prof. Koellreutter: “O homem é condenado a viver de acordo com sua própria consciência.” Simples assim...

                Minha paciência com algumas coisas acabou.  Não aguento mais “ismos”, nem “istas”, nem aqueles que se autodenominam profetas, mestres, missionários, etc, etc, etc. Só quero saber de gente que sabe que é gente, que vive aqui, agora, no seu tempo; que saiba que sua verdade é uma pequeníssimíssimíssima parte de um TODO incompreensível, dada sua – atual??? - condição humana.  Quero companheiros que saquem seus erros e acertos (e as infinitas nuances entre os dois pólos), abertos à troca, receptivos, inteligentes, que defendam suas ideias respeitando as dos outros, as minhas inclusive, desde que seja possível. Se não for possível existir esse respeito – que é construído ENTRE as pessoas envolvidas, e de comum acordo, que isso fique bem claro! -  aceite a distância.

                Estou chegando na reta final do percurso dessa vida, não tenho mais saco pra aguentar atritos que não sirvam pra deixar minha vida melhor, que me façam crescer. Egoisticamente assim. Existem 7 bilhões de encarnados e, dizem, três vezes esse número rondando por aí; oras, não tenho tempo, numa vidinha como essa minha, pra dar atenção a todo mundo, então... posso escolher. E a escolha se dá através de uma palavrinha mágica, cujo significado – obviamente pessoal - é dado por minha consciência atual. Mutável, mutável...

                As portas se abriram: entrei no domínio do AMOR. 







terça-feira, 19 de junho de 2012

Amor é Amor, ciúmes é enrosco emocional


          Ciúmes é uma meleca emocional, mas quem sente, sente... e quem é o objeto do ciúme, também sente as consequências de uma coisa que nem sua é.   Quem  tem o azar de ter desenvolvido dentro de si  essa emoção sofre, não dá pra negar, é difícil pacas olhar praquela babaquice, saber que não tem nada a ver, mas o troço não te abandona porque te pertence. Aí não tem saída, tem que saber lidar com a sombra, senão ela te engole.


         O lance é como expressar – e se expressar – essa bobeira. Há 15 anos,  passei  férias com uns amigos e, dentre eles, tinha um casal que está junto até hoje. Já dava pra perceber que a relação era forte... A mulher era (e é) muito especial, bonita pacas, sensível, carismática, etc, e o cara também, com uma característica particular e diferente dela, a de ser  daqueles tipos de homens “pavões”,  altamente sedutor e sempre em busca de um novo aplauso feminino. Um dia, estávamos os três no banco de trás do carro e ele, por ser ele e sem nada de particular ou pessoal, estava jogando suas plumas pra cima de mim. Na época ficava muito constrangida com essas situações, era ainda bem imatura, e o que mais me incomodova era saber que se estivesse na posição da mulher dele, já teria descido do carro ou armado o maior barraco. Mas ela não agiu assim. Ô mulher sabida! Lá pelas tantas, interrompeu nossa conversa com muita doçura, fez um carinho no rosto de seu marido e disse: "Você está dando tanta atenção pra Elisabet que estou começando a ficar com ciúmes." Ah, ele desmontou o Don Juan na hora, deram um super beijo daqueles bem amorosos e o cara sossegou o facho. Naquele dia aprendi uma grande lição, ou melhor, ainda estou tentando aprender na íntegra...


             Não acredito que ciúmes seja indicador da presença do Amor, pelo contrário, é só uma  expressão pessoal de carência afetiva, necessidade de marcar território, apego, necessidade de submeter o outro à sua vontade e de controlar a situação. Amor é outra história... amor é aquele lance gostoso, que vibra pelo outro, um bem querer desapegado, um sentir-se bem  na relação estabelecida, o gostar do outro como é e está. Quem ama, quem já amou, sabe que nem sabe porque ama! Amor não tem cobrança, nem tem motivo pra isso, porque só o fato de experimentar esse sentimento basta. Amar é bom demais!


             O Amor tá dentro da gente, todo mundo tem e quer compartilhá-lo nos formatos e expressões que conhece. Existem várias maneiras de viver o Amor, e isso se constrói a dois, de acordo e com respeito às vidas envolvidas, sem forçar a barra, porque tem vezes que dá, tem vezes que não dá. Às vezes rola uma história concreta a dois, às vezes se transforma em outros tipos de relação afetiva, a amizade é uma delas, às vezes tem tanta gosma emocional atrapalhando esse sentimento lindo, que não rola nada mesmo, o Amor sai correndo em disparada. O Amor se assusta com a truculência e se afasta. 


                                           Amor quer Amor... 


quarta-feira, 13 de junho de 2012

E qual é o caminho do meio?

 




                A primeira vez que lembro ter tido um contato avassalador com a expressão mais profunda do meu ser, aconteceu quando era bem pequena. Passeava de mãos dadas com Maria, a moça que trabalhava em casa, e vi uns meninos atirando pedras num gatinho. Não deu tempo da Maria me segurar, saí correndo e me coloquei entre os meninos e o animal. Falei um monte de coisas pros moleques, palavras que vieram sei lá de onde, e sei lá como aprendi, um tentou atirar mais uma pedra no bichinho mas antes  atirei uma pedra nele, e aí  os garotos saíram correndo ao invés de me enfrentarem. O gatinho aproveitou a confusão e fugiu; eu voltei pra casa ouvindo pito da Maria e minha mãe me colocou de castigo. Não entendi porque tomei pito, nem porque fui castigada, já que tinha certeza ABSOLUTA da justiça daquela ação, mas me calei porque as duas, de acordo com a lógica que usavam, também estavam certas: os meninos podiam ter me machucado gravemente e talvez hoje sequer estaria aqui pra contar essa história.
                Ali ficou claro o quanto seria difícil encontrar “o caminho do meio”, a medida certa para continuar viva e ao mesmo tempo expressar os movimentos internos. Foi duro o trabalho para me tornar um ser humano aceitável na sociedade, ou seja, aprender  a ser medrosa, conivente com as injustiças, dócil, hipócrita, egoísta e uma pessoa que sufoca suas expressões mais profundas em prol da estabilidade das situações; um trabalho árduo e cotidiano, onde tomei muitas porradas pra “endireitar” (e ainda tomo); onde muitas vezes cedi pra ser “aceita” (e ainda cedo), nesta busca contínua do equilíbrio entre Ser e Estar em Relação.
            Apesar de todas experiências e escolhas, apesar de todas máscaras, LUZ e Sombra, a Alma continua intacta e em situações limites, quando é impossível ser de outro jeito, ela grita sua força. Que o TODO, Deus, energia primordial, etc, permita continuar a ter contato direto com esses movimentos internos, com minha Alma, e que se expresse com/em Amor e Sabedoria.


                Assim seja. 




Ilustração de Roberto Weigand - "O equilibrista"
http://www.robertoweigand.com.br/blog2/

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Se você consegue viver sem compor, faça outra coisa



            Soube de uma mulher que depois de uma experiência espiritual começou a “receber” canções e que queria gravar um CD com essas músicas para presentear o Universo. A história foi relatada em maneira fragmentada, e com essas  informações, comecei a questionar esse presente ao universo... 
             Qualquer espiritualista sabe que muitos trabalhos são feitos no anonimato: é o yogue que medita na caverna, é o espiritualista que trabalha energia em casa, é a dona de casa que faz suas orações antes de dormir; é toda e qualquer pessoa que faz  brilhar seu coração, que ama, que quer o bem sem olhar a quem, que se encanta com as nuvens e o céu azul, que transborda amor pela vida, que expande sua LUZ. Então, fico pensando quais são as motivações reais para essa senhora gravar um CD ao invés de cantar sozinha, ou pra sua família, amigos, comunidade? Não seria uma necessidade do ego? E por que não aceitar essa necessidade do ego ao invés de colocar uma capa de espiritualidade generosa e um tanto quanto pretensiosa: presentear o universo !!!  É que às vezes é mais fácil inventar fantasias pra se afastar do cotidiano das experiências particulares de vida do que agir de acordo com a  real expressão de alma nesta encadernação, e estou sendo dura porque o buraco é mais em baixo, bem mais em baixo... 
              Sei de muita gente que “recebe” músicas, pra mim já aconteceu e algumas vezes consigo reconhecer se vem do meu repertório ou se vem de outros lugares. Mas o que as pessoas fazem com essas músicas? Ou melhor, o que podem fazer? Sei o que fazer com o que recebo: escrevo uma partitura, procuro pessoas que possam tocá-las ou eu mesma me apoio no piano e canto. Se quero gravar um CD, saio por aí procurando financiamento ou trabalho como louca pra pagar do meu próprio bolso, porque as coisas neste planeta acontecem assim: a  inspiração pode ser divina, mas a realização é neste plano material. O que quero dizer é que só inspiração não basta, é preciso saber como concretizar, e nem todo mundo é capaz ou está disposto a arcar com os ônus de se tornar um receptáculo apropriado, a desenvolver habilidades que levam anos de estudo cotidiano; nem todos os que são inspirados estão dispostos a mudar suas vidas e colocar a mão na massa, na massa material. 
              Outro dia um grande amigo, quando perguntei por que ele não compunha mais já que suas músicas eram maravilhosas, me respondeu que uma vez ouviu de seu professor: “Se você consegue viver sem compor, faça outra coisa.” Ele consegue viver sem compor, eu não. Fica aí a sugestão pra essa senhora. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

E se viver for espalhar canções?


E se viver for espalhar canções, oferecer bocadinhos de som salpicados de carinho?


E se, nesse vendaval auditivo, um sorriso menino brilhar a cada entrega?


E se o brilho desse sorriso iluminar os espaços sombrios do coração?


E se a troca de luz e som se transformar em espirais coloridas que giram na tela rumo ao infinito?


E se viver bem for apenas voar com leveza no fluído natural das expressões da alma?

domingo, 13 de maio de 2012

Ser Multicultural


                Outro dia, numa disciplina do mestrado, um amigo falou que todo brasileiro precisa conhecer a riqueza de sua cultura e expressá-la. Concordo, mas... legal mesmo é cada um ser verdadeiro, expressar sua arte de acordo com sua história de vida, com suas “verdades” e a minha é multicultural.

                Nasci no Brasil, filha de ucraniano de origem alemã e neta de romenos, também de origem alemã, todos luteranos apesar de não praticantes, com uma tia-bisavó judia. Passei minha infância num bairro onde a maior parte das crianças eram filhos ou netos de imigrantes: japoneses, italianos, sírio-libaneses, espanhóis, portugueses, russos... Meu tio era filho de índia com espanhol, minha madrinha nasceu em Istambul, nas festas do meu primo “brasileiro” minha mãe fazia a voz grave nas músicas caipiras com a tia que tocava violão, e depois eu sambava feliz, sem me importar com os passos germânicos – que talvez nem fossem tão teutônicos assim - enquanto rolava solto as vozes daquela  família mistureba, acompanhadas por violão e  pandeiro. Tinham festas que um tio dançava Kalinka até cair – literalmente! -depois de beber vários copos de vodka gelada, outras que me admirava com os passos sensuais dos tios tangueiros.

                De tanto frequentar a casa da minha amiga Claudia Naomi Tarumoto, aprendi a comer arroz na cumbuca  usando hashi; aprendi a conhecer um pouco do universo cultural japonês através do comportamento da sua família, dos sons que ouvia, da tradução dos mesmos em complicada grafia. Da minha amiga sírio brasileira, Solange Sá, absorvi as maneiras doces e amorosas de sua família. Na escola tinha o espanholzinho que falava com sotaque do ouro que tinha nas igrejas europeias, e a professora dizia que o ouro tinha sido roubado da América Latina; acho que foi aí que comecei a me interessar  por história. Ganhei dois livros de aventuras, as viagens de uma menininha e seus animais exóticos de estimação; o primeiro pelas Américas e o segundo pela África. Me apaixonei pela América Latina, me apaixonei pela África, e fiquei muito tempo perturbada quando soube que arrancavam as pessoas da sua terra, as afastavam da família e amigos, e as levavam para trabalhar de graça num lugar distante e com costumes diferentes, mas só soube mais tarde o que fizeram com as populações indígenas das Américas. Foi na infância que comecei a pensar nas possibilidades de encontro e reconhecimento entre culturas, no que hoje chamam de cultura da Paz, não em maneira consciente, claro, mas com o coração, de tanto que gostava dessa diversidade.

                Vivi na primeira infância a riqueza da diversidade cultural: as línguas com suas construções tão particulares, os fonemas, aqueles sons que expressavam a maneira de ser peculiar a cada povo, as comidas, as danças, os odores, as expressões físicas, os pensamentos, as éticas, as religiões e filosofias de vida, os jogos. Mais tarde, a vida continuou a me presentear com situações multiculturais: a escola francesa, meus amigos judeus, as viagens pelas Américas, Europa e África, a Associação Cultural Cantosospeso de Milão, com sua proposta de união entre os povos “de várias cores, vários sons”, para finalmente retornar ao Brasil, conhecer melhor suas manifestações culturais, e me embrenhar no estudo e vivência da espiritualidade universalista. 

                A riqueza cultural desses “Brasis” é tão gigante quanto seu território,  é maravilhosa,  com certeza,  mas não é a única que me pertence ou que me desperta a curiosidade.  Por honestidade e coerência com a história de vida dessa encadernação, só posso ser multicultural.  



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Delicadezas


    

Se pudesse te curava. Se pudesse, me curava também. Olhar no fundo do seu olhar e não poder dizer nada porque não há nada que se possa dizer... Por enquanto é assim.  É, é só esperar, esperar que um dia se curem as feridas ou ao menos parem de sangrar. Sabe-se lá porque sei das suas, talvez porque bebi de seu copo, talvez seja uma ressonância simpática, empatia, a essência colhida nos sons. Sim, nos sons, porque as palavras são imprecisas, incapazes de traduzir a poesia da alma. Mas... a música... ah, a música entra nos espaços mais recônditos. A música desce aos infernos, ultrapassa as esferas celestes, voa longe, entra em sintonia e volta da viagem organizada, como um retrato em movimento, como flashes de luz apreendidos pela câmera aberta. A música cura. Cura sim, devagar, com carinho, atenção. A beleza cura. Cura sim, devagar, com carinho, atenção. O Amor cura. Cura sim,  se aproxima devagar, e com carinho, atenção e paciência cuida silenciosamente dos afetos.  

domingo, 6 de maio de 2012

Aprendendo a dizer "não"




      A maior dificuldade pra algumas pessoas é saber o momento de dizer "não". Mas todo mundo aprende, ah, aprende, porque os professores aparecem numerosos enquanto não cumprirmos essa tarefa. E de nada serve pensar o quanto são inconvenientes, porque estão agindo de acordo com o que acreditam, segundo suas próprias necessidades e anseios, sem pensar em você. Você – eu inclusa! – é que precisa decidir o que fazer com sua vida, com seu tempo, e saber dizer "não" com tranquilidade, sem culpas, e deixar isso amorosamente muito claro. Ninguém vai pedir pro piloto de avião ajudar o passageiro que está passando mal porque sabe que perigas todo mundo terminar mal se ele sair de sua posição. Mas, quem sabe o que você faz na vida? Quem sabe dos aviões que está dirigindo? Só você, e dizer "não" também é preciso.

      O mais difícil dos nãos a serem ditos são aqueles que negam ajuda. Uma das últimas tarefas de Psiquê - talvez a última - é justamente resistir aos pedidos de socorro daqueles que estão se afogando. É uma imagem cruel, para todos, Psiquê e náufragos .... Aprender a controlar o ímpeto da “generosidade” é difícil, mas necessário, fundamental para prosseguir a travessia. Vivi, há muitos anos atrás, uma situação horrível, em que estava me afogando em problemas, e como me debatia terrivelmente, pedi ajuda a uma grande amiga. Ela me negou, com firmeza e com amor. Sempre a considerei sábia, generosa – e por isso fui pedir sua ajuda! - e apesar de naquele momento ter é ficado bem p... da vida com seu “não”, o tempo passou, e só tenho que agradecê-la!  Hoje, pra mim, ela é ainda mais sábia, e ainda mais amiga. Ela segurou o timão de sua vida sem desviar seu caminho apesar das minhas súplicas e chantagens emocionais inconscientes; soube observar com clareza e carinho que só eu, com minhas próprias forças, discernimento e traçando uma nova rota pra minha vida poderia me salvar. E assim foi. E sou muito grata pelo respeito que ela teve – e tem – por mim como ser humano. Ela, minha querida amiga, continua sua maravilhosa travessia e espalhando belezas no mundo, como tem de ser...

     Sigo seu exemplo, e estou aprendendo a dizer não, estou aprendendo a negar ajuda, estou aprendendo a usar meu tempo, estou aprendendo a viver minha vida. Não é fácil, e nem sempre as pessoas ao redor entendem, como eu mesma não entendi na época, mas cada um tem seu momento dentro dessa trajetória maravilhosa que é viver. 


       Que a LUZ continue a me ajudar a discernir sobre quando e como dizer “nãos” e “sins”


       Que a LUZ esteja com todos

* A ilustração acima se encontra no livro infantil "Psiquê" de Angela Lago http://criancas.uol.com.br/novidades/2010/03/12/historia-de-amor-entre-eros-e-psique-vira-livro-infantil-ilustrado.jhtm 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Armadilhas



               Caminho bem, tranquila, feliz, aberta, cheia de vitalidade quando, de repente, ela aparece outra vez: a armadilha. No primeiro momento culpo o externo, a vida, os outros, a situação. É natural, é o primeiro impulso se revoltar, colocar a raiva pra fora, vociferar, praguejar, deixar as emoções fluírem, deixar os pensamentos viajarem em possibilidades, hipóteses, fantasias. O segundo momento, pra mim,  é canalizar essa energia: correr, nadar, meditar, fazer yoga, encher os ouvidos de meus queridos amigos e de minha querida amiga e terapeuta Maísa Intelisano, escrever, desenhar, compor, me expressar em alguma maneira. Aí começa o alívio, mas a armadilha ainda me prende. É como se me aproximasse devagar do monstro, com cuidado e respeito, sem o medo e afastamento do primeiro momento, mas ainda sem conseguir enxergar a real natureza da armadilha. O terceiro momento é o mais difícil, é encarar as sombras, é reviver o que quero esquecer, é acordar aquilo que, por proteção ou conveniência, já nem me lembro mais. Meu  terceiro momento é olhar com compaixão e firmeza pra força destruidora, é falar pra ela: “Tudo bem, você está aí gritando porque quer ter teu espaço. Já te encontrei, e agora vou encontrar um lugar pra você:  vou te colocar no devido lugar!” É aí que me liberto e posso começar a recolher “os ossos”, iniciar o ciclo de vida/morte/vida; o processo constante da construção-equilíbrio-remodelação.

                Sonhei  nesta semana que estava numa casa, numa sala branca e sem móveis, com  homens e mulheres que não conheço  mas que sentia serem meus amigos. Estávamos em silêncio,  daqueles silêncios gostosos que só cúmplices conseguem viver, e aí um cofre explodiu e estilhaçou os vidros. Não ficamos perturbados, mas começamos a limpar a sala e voltamos ao silêncio, mas o cofre explodiu outra vez, e junto com os estilhaços tinham resíduos escuros, uma espécie de poeira gosmenta. Pensei: ”Ai, que saco, limpar outra vez!” Mas meus amigos estavam tranquilos, tinham aquele sorriso de bem estar em seus rostos, e me ajudaram a limpar a casa outra vez. E voltamos ao silêncio, à plenitude dos doces silêncios compartilhados...

                A viagem é longa, constante, dura, e tem de tudo, desde estrelas luminosas até o esterco mais fétido, e tudo isso precisa de um espaço, de um lugar, de reconhecimento. Integração. Apanhei os ossos escolhidos, montei o esqueleto num local recolhido. Acendi o fogo sagrado e, observando a figura inerte,  busquei na fonte, na intuição, a canção certa. Encontrei a canção certa desta vez! Cantei, e os sons cobriram de carne, sangue e pelos a estrutura. E ela/ele saiu correndo, viva/o e brilhante, livre, audaz, feliz.

                ( Quando for o momento, leiam – ou releiam - “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkole Estés) 

sábado, 21 de abril de 2012


Quem de fato consegue relatar o fato?

                Minha querida terapeuta, Maísa Intelisano, já me perguntou duas vezes “o que é de fato?”. Na primeira vez me esforcei ao máximo pra me distanciar emocionalmente, tentar alcançar a experiência com racionalidade, tirando as vestimentas pessoais da situação. Hmmm... Na segunda vez, me dei por vencida: impossível observar o fato por si só; sempre serei eu a percebê-lo, por maior que seja o esforço de isentá-lo das roupas pessoais. Algo interior, o mínimo que seja, deformará o fato externo. (Externo?) Lembrei-me de dois livros que li há muitos anos atrás. No “Mayombe” de Pepetela, um maravilhoso escritor angolano, ele descreve o mesmo fato através dos olhos de várias pessoas de culturas diferentes. Preciso reler o livro, mas do que me lembro, o “fato em si” tinha algumas pequenas semelhanças nos diversos relatos, mas dependendo da maneira como eram vistos/vividos, eram interpretados em maneiras completamente distintas, e acabavam por provocar reações ainda mais diferentes. O outro livro é “Exercícios de Estilo” de Raymond Queneau (esse encontrei disponível na net: http://pt.scribd.com/doc/58086474/Exercicios-de-Estilo-de-Raymond-Queneau-em-Portugues ) onde ele conta 99 vezes a mesma história banal em diversos estilos, e nem sempre a gente consegue reconhecer  de fato “o fato”.  Tendencialmente cubro  os fatos com aquilo que chamam de fantasias... Hmmmm... Prefiro dizer que são significados outros, às vezes incomuns, mas que pertencem à minha realidade. Sei que às vezes estou com óculos cor de rosa, outras com cinzas, ou amarelos, azuis... São minhas lentes, e sabendo que essas lentes, apesar de serem reais, de fazerem parte da minha verdade, nem sempre conseguem alcançar a realidade dos outros. Sabendo disso, procuro ouvir a descrição das outras realidades, tornar cotidiano o exercício que fiz ao tentar responder pela primeira vez a pergunta da minha terapeuta. Procuro entender o que exagero, o que floreio, quais são as emoções que estão presentes na interpretação do fato do momento e quais  experiências passadas me levam a enxergar dessa maneira; quais são os fantasmas, quais são as sombras, as neuroses que distorcem os fatos. Outras vezes relaxo, e só me deixo sentir o frescor do doce vento de outono. Sim, é apenas um vento, mas é fresco, doce e aqui está, nesta estação.

domingo, 8 de abril de 2012

Só sei que nada sei


                Sei que nada sei, nada sou, nada tenho. Quando essa consciência se faz presente – infelizmente nem sempre é assim – sei que estou sob o domínio da liberdade, do lúdico, do amor, do poder tudo. O medo desaparece pois sei que nada sei, nada sou, nada tenho.  Mas tudo posso! Sem apegos, sem calcular riscos, deixando apenas pro coração decidir - ou deixar fluir - quais caminhos  trilhar. Doces momentos em que sei que nada sei, nada sou, nada tenho.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tem um buraco no meio do caminho

                Tem um buraco no meio do caminho... Sei lidar melhor com as pedras: as removo, transformo em flores, contorno, pulo, ou simplesmente aceito. Os buracos ainda são difíceis de entender. Se for  pequenino, salto, dou a volta, se for grande, muitas vezes a melhor opção é entrar com o corpo todo, ficar um tempo ali, fazer a vistoria do espaço ou não fazer nada, só ficar ali, quietinha, em meditação. Quem sabe consigo até sair dali com um diamante!

domingo, 25 de março de 2012

A grande fuga


                O que fazer ao perceber que nada faz sentido, que tudo é uma grande fuga? Tudo, a personalidade, o que essa personalidade pensa, cria, sente e faz, tudo é uma maneira de preencher  o buraco primordial, a ferida aberta que explode. Quem sou? Quem sou, de verdade, tirando o gesto aprendido? Nada. Gostaria de realmente me sentir nada e vazia, mas  estou poluída de experiências mal digeridas; estou apegada às formas que criei num passado distante e que já não me servem mais. Sim, nada faz sentido. Sim, tudo faz sentido. Sim, é uma grande fuga, mas habito um navio de loucos que ruma ao naufrágio, e ter consciência desse fato só me torna consciente desse fato, nada mais que isso. Nem superior, nem inferior, melhor ou pior, ou quaisquer das nuances internas a esses extremos. Apenas consciente, fazendo o melhor pra me curar. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Ó, Deus, todo dia tem mesmo que aprender alguma coisa?"

                Como disse uma amiga minha: “Ó, Deus, todo dia tem mesmo que aprender alguma coisa?”  Vou em frente... Ó, Deus, me dá umas férias? Pelo menos um dia??? Tipo assim, ficar largada numa rede debaixo de um coqueiro tomando água de coco gelada e olhando o sol morninho refletido nas ondas do mar... se for possível, que a paisagem seja embelezada por garotões bronzeados e sorridentes jogando futebol lá longe (bem longe!) e uns surfistas exibidos singrando as ondas.  Quem sabe até um eunuco  - sim, um eunuco pra não ter que pensar em nada! - mudo-cego-surdo e lindíssimo, e que só saiba me abanar com plumas coloridas de pavão.  Já que é pra sonhar, que neste dia eu seja invisível, incomunicável e que todas minhas necessidades sejam saciadas sem precisar sequer pensar. Melhor: que nem tenha necessidades! Um dia pra simplesmente estar, sem emoções, pensamentos, reflexões, atitudes, desejos... Sem livros, sem músicas, sem conversas, sem ideias, sem projetos, sem elucubrações ...   


Hmmm...         Que gostoso...                        Hmmm... ... ... ... ... 


hmmmm ...   ...    ...    ...   ...    ...   . . .     .  .  .     




 hmmmmmm               .   .   .                  .  .  .                        .  .  .                    . .  . 
   




hmmmmm           .                       .                       .                                              .                       .                       .                                            








Ai, que chato! Dá pra ser só um meio dia ???







domingo, 11 de março de 2012

Era uma vez uma mulher

Era uma vez uma mulher fraturada e sem consciência de suas fraturas. Uma dor profunda a mantinha num poço escuro, apesar de só saber expressá-la com sorrisos; uma dor escondida pela vergonha de se assumir frágil e vulnerável. Uma dor sufocada. Foram passando os anos, e a dor crescia, e quanto mais tentava sair do poço, mais se afundava; quanto mais procurava novos caminhos, percebia que só conseguia rodar em círculos. As dores aumentaram e acabaram por sair pelos poros, em sua pele, em seus ossos, na fala truncada, no pensamento desconexo, na ausência de vida, e quando achava que não tinha mais nada a perder, perdeu o que sequer sabia ter. Então, começou o regresso ao desconhecido, aquilo que nunca nenhum livro mostrou, que nunca ninguém lhe disse, mas que todo mundo conhece em variadas formas, da sua própria maneira, ao despertar. Começou o regresso ao ponto proibido, aquele que sua couraça fortalecida em anos de afirmação e autossuficiência não permitia. Mas era tudo inconsciente, um movimento interno forte que se dava em rompantes de criatividade. Os rompantes começaram a ter mais constância, e as dores vieram à tona. Era uma vez uma mulher fraturada que indaga sobre os porquês de suas fraturas.